Vem chegando o inverno, castigando os pampas… o gaúcho, acostumado com o rigor da estação, se apruma ao redor do fogo, ceva o amargo que aproxima os comparsas e aquece a alma. É tempo de apreciar… o sol do domingo é mais bonito, a grama branca de geada, o cusco “véio” desconfiado. É tempo do pinhão, da laranja, da bergamota.

Hoje falaremos da crença popular, mais em específico, das benzedeiras. Benzer é a arte de curar os males através da oração e gestos, muitas vezes acompanhados de objetos, ervas ou simplesmente sinais. Apesar de não serem acreditados pela medicina, pessoas com esse dom/técnica evoluíram em paralelo com a ciência. Os ensinamentos são passados de pessoa para pessoa e na maioria das vezes as orações são mantidas em segredo.

A origem se deve ao povo indígena e a cultura africana, através da religião e fé. Atualmente, as benzedeiras estão cada vez mais escassas, mas existem pessoas que acreditam na eficiência da benzedura. Muitas mães ainda costumam levar bebês, procurando a cura para o sapinho, infecção causada por um fungo que acomete recém nascidos. Existem pessoas que juram ser o método mais eficaz, talvez o único.

Temos benzedura pra tudo: sapinho, picada de insetos, cobras e até cura de animais. Meu avô Lucio Costa benzia para picada de cobra. Quando um taura era picado por uma cruzeira malvada, logo iam procurar o tio Lucio para resolver o problema. E lá ia o velho, sussurrando algo que ninguém compreendia, alguns sinais e gestos sobre o doente e ao final ele dizia: “vai pra casa chê, descansa e não te preocupa, com essa benzedura, até a cobra já morreu, já ouviu“. Dizem os populares, que muitos encontravam a cobra morta. Se é verdade não sei, só sei que foi assim….

Agora vamos as laranjas do início do texto. No inverno, é muito comum a abundância da fruta, fonte de tantos benefícios não só para os humanos, muitos animais aproveitam e a utilizam como alimento. O gado, irracional como é, muitas vezes fica engasgado ao comer muitas laranjas em sequência. E isso passa a ser um problema, que precisa ser solucionado rapidamente ou corre-se o risco de perder o animal.

Nessa hora que entra a benzedeira. Irei chama-la de forma fictícia, de Tia Moça. Conhecida na região, a senhora é constantemente procurada pela comunidade interiorana para curar os males dos entes queridos. Além das pessoas, Tia Moça também cura animais.

Quando um animal se engasga com laranja, o guri monta no petiço e corre até a casa da velha benzedeira, precisa salvar o leite das crianças. Ao cruzar a porteira, o miúdo chega gritando, chamando a idosa pelo nome para alertar o grave problema em que estão submetidos. Tia Moça ouve com atenção e dirige-se ao fogão a lenha, sempre fumaceando para aquecer aquele pequeno lar. O Minuano assovia, atravessando as frestas das portas e janelas, o guri esfrega o nariz, o vento o castigou durante o galope. A benzedeira dá de mão em um tição de lenha do fogão e inverte as pontas. Enquanto a outra ponta começa a queimar, outro tição espalha fumaça na casa, com gestos, sinais da cruz e oração inaudível ao ouvido do guri, que só observa… olhos arregalados, meio assustado, meio risonho, hipnotizado, sem saber o que fazer. Agora, além de ranhento, os olhos lacrimejam devido a fumaça encerrada na casa.

Após o ritual, Tia Moça diz ao piá: “Monta esse teu petiço e vai sem pressa pra casa que a tua vaca está bem, pastando perto do galpão“. Se o bicho se virou sozinho com as laranjas ou é resultado de benzedura, ninguém sabe. Mas Tia Moça já salvou duas vacas da família, sem contar os inúmeros causos dos vizinhos. Se é verdade não sei, só sei que foi assim….

Tia Moça não cobra pelos seus serviços. Se alguém insiste muito no pagamento, a anciã pede algumas velas ou fumo em corda para o palheiro, companheiro de todas as horas. E assim, vai passando os dias, mais lentamente do que estamos acostumados.

 

Foto: www.brasilconjure.com

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Histórias e crenças a parte, cada um tem sua opinião a respeito. Não pretendo defender ou desacreditar nas benzedeiras, curadores ou como queira chamar. Tenho uma opinião formada: mal não faz. Todo o tipo de oração, prece, pensamento positivo, etc, só fazem bem… e um remedinho também =)

Grande abraço!